::... Nestor Capoeira ...::

Abaixo, temos diferentes seções:

  • Inicialmente uma "Iconografia Comentada", com pinturas, gravuras e desenhos que marcaram época, de 1822 até 1981, comentadas e explicadas por mestre Nestor Capoeira:
  • Em seguida, Fotos variadas no exterior e no Brasil, inclusive de uma das "Sexta sem Lei": rodas realizadas ocasionalmente às sexta-feiras, na Escola Nestor Capoeira (Rio de Janeiro), onde se lembra a antiga tradição das rodas regadas à cerveja e à cachaça, onde era praticada uma capoeira de "vadiação" e curtição, que começa com os "bambas da era de 1922" e vai até as célebres rodas domingueiras no "barracão do mestre Valdemar da Paixão", no bairro da Liberdade, em Salvador, por volta de 1960.
  •    Abaixo vemos pinturas, gravuras e desenhos que marcaram época, de 1822 até 1981.  Hoje, estes desenhos nos deixam "entrever" algo da capoeira praticada em determinado período, e também algumas características do "visual" daquele período.
       Além disto,  vemos como determinados artistas, mestres, ou estudiosos, gostariam de representar a capoeira para a sociedade:

  • enfatizando seu lado de "luta";
  • ou o de "tradição";
  • realçando seu aspecto "ritual", "lúdico"; ou de "resistência à cultura dominante", etc.:
  • ou apresentando  a capoeira como algo "marginal".
  • "Negros lutando, Brazil"
    Augustus Earle, 1822 (Biblioteca Nacional da Australia)

       O inglês Augustus Earle, em uma aquarela de 1822, "Negros lutando, Brazil", nos apresenta um negro atingindo violentamente outro com um chute (hoje conhecido como "benção").
       Mais tarde, alguém identificado apenas por A.P.D.G., em 1826, descreve como um escravo se defende, e ataca, dois brancos, usando esquivas e chutes:

     "O negro acertou-o com a planta do pé no estômago com tal força e destreza que prostou-o morto"
    (A.P.D.G., Sketches of Portuguese life, manners, costumes, and character, Londres, 1826).

       Esta aquarela, de Earle, e este relato primam pela violéncia (e também pela ausência do berimbau).  Isto pode nos levar a conclusão de que a "capoeira mais antiga" era algo extremamente violento; da mesma forma que também foi a capoeira praticada pelas maltas cariocas no final dos 1800s. 
       No entanto, o francês Dennis (Ferdinand J. Dennis, Histoire et descrption du Brésil, Paris, F. Didot frères, 1839, p.147), em 1839, embora sem mencionar o berimbau ou as rodas, descreve a capoeira como um "combate de mentira".

    "Negros Volteadores"
    DEBRET. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Paris: Didot Firmin et Fréres, 1824.

       Os "negros volteadores" saiam, aos pulos e saltos acrobáticos, à frente dos enterros de personalidades importantes da comunidade escrava negra.
       Embora a capoeira carioca dos 1800s não ter o , ou saltos acrobáticos, estes elementos já estavam presentes na cultura daquela época.

    "Escravo tocando berimbau."
    DEBRET. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Paris: Didot Firmin et Fréres, 1824.

       Estas gravuras de Debret ("Negros Volteadores"e "Escravo tocando berimbau") demonstram que acrobacias e o berimbau  já existiam no Brasil no começo dos 1800s, entre os africanos e seus descendentes mas, ao que tudo indica,  estavam dissociados da capoeira.
       O mesmo se pode dizer dos golpes de pé, documentados por Augustus Earle (1822) e descritos por A.P.D.G. (1826): os golpes existiam e eram usados em  situação de luta mas, ao que tudo indica, não eram utilizados na capoeira da época conforme veremos na descrição de Rugendas (1834), a seguir.

       Cem anos depois,  por volta de 1920, estes elementos - berimbau, golpes de pé, e aús (e outros movimentos acrobáticos) já tinham sido assimilados pela capoeira baiana, segundo as descrições de mestre Noronha dos "bambas da era de 1922"  (O ABC da capoeira angola, os manuscritos de mestre Noronha, Brasília, DEFER CIDOCA/DF, 1993), que Noronha conheceu na sua meninice.
       Mestre Bimba também cita os movimentos acrobáticos na sua juventude, década de 1910, quando conto que seu mestre era capaz "de dar um salto mortal e cair dentro dos (próprios) chinelos".

       Vale a pena lembrar que temos muitos registros (especialmente registros policiais) da capoeira no Rio de Janeiro duraqnte todo os 1800s.
       No entanto, a capoeira na Bahia só começa a se tornar visível a partir de 1900s.  Isto é algo desconcertante para a maioria de capoeiristas e estudiosos que sempre consideraram a Bahia, e em especial Salvador, o berço da capoeira.  Para maires informações veja a página "História, Filosofia, Pesquisa" e, no fim  da página, clique o capítulo "Bahia, 1850-1900".

    ""Jogar Capüera ou Dance de la Guerre""
    RUGENDAS, J.M. Voyage pittoresque et historique dans le Brasil. Paris: Engelmann et Cie, Paris, 1834.

       Eis a descrição da capoeira vista pelo alemão Rugendas (quando esteve no Brasil pela primeira vez, entre 1822 e 1825), que acompanha a gravura na edição francesa de seu livro (1834).

    Os negros tem ainda um outro folguedo guerreiro muito mais violento, a capoeira: dois campeões se precipitam um sobre o outro procurando dar com a cabeça no peito do adversário que desejam derrubar.  Evita-se o ataque com saltos de lado e paradas igualmente hábeis; mas lançando-se um contra o outro, mais ou menos como bodes, acontece-lhes chocarem-se fortemente cabeça contra cabeça, o que faz com que a brincadeira não raro degenere em briga e que as facas entrem em jogo ensangüentando-a.

       Novamente, a violência está presente no jogo.
       Por outro lado, Rugendas não menciona o berimbau (desenhado por Debret, em 1824), nem os golpes de pé (desenhado por Earle, em 1822), nem os floreios acrobáticos (por Debret, em 1834), nem o jogo no chão.

       Podemos chegar à conclusão que estes elementos não existiam na capoeira carioca de 1834 (que vai ser dizimada pela perseguição policial comandada por Sampaio Ferraz, o "Cavanhaque de Aço, quando a República é proclamada em 1890).  No entanto estes movimentos já faziam parte da capoeira baiana, por volta de 1920, como sabemos pelas descrições de mestre Noronha e de mestre Bimba.

    ""San Salvador""
    RUGENDAS, J.M. Voyage pittoresque et historique dans le Brasil. Paris: Engelmann et Cie, Paris, 1834.

       Esta é outra gravura de Rugendas, do mesmo livro da gravura "Jogar Capüera ou Dance de la Guerre".  Trata-se de cidade de Salvador, Bahia, vista da Ilha de Itaparica.
       Muitas pessoas consideram que os escravos, que vemos na gravura, "estão jogando capoeira".  É possível, mas não  é uma certeza.

    METER O ANDANTE
    Kalixto, 1906.

       Ahi não conversei, grudei na parede, escorei o tronco, e meti-lhe o andante na caixa de comida. O dreco bispando que eu não era pecco, chamou na canella que si bem corre, está muito longe...  Eu voltei p'ro samba garganteando:
       "Meu Deus que noite sonorosa"

    A LAMPARINA
    Kalixto, 1906.

       Grimpei, perdi a estribeira, cocei-me, dei de mão na barbeira e... ia sapecar-lhe um rabo de gallo, quando o cabra cascou-me uma lamparina que eu vi vermelho!

    O CALÇO OU A RASTEIRA
    Kalixto, 1906.

       Cahi no bahiano rente a poeira, e isquei-lhe um rabo-de raia que o marreco voôu na alegria do tombo, indo amarrotar a tampa do juizo n'uma canastra, e ahi gritei: "Entra negrada! O turuna enfeitou-se outra vez... Oh! cabra cutuba!"

       L.C., muito provavelmente Lima Campos, na luxuosa revista Kosmos, Revista Artística, Scientífica e Literária (Rio de Janeiro, nº3, março de 1906), escreveu um artigo apresentando a capoeira como  "esporte", "nacional", e "mestiça"; definindo-a como uma luta defensiva e de esquiva; e realçando o caráter escarnecedor da capoeira carioca.
       O artigo veio ilustrado com excelentes gravuras de Kalixto (Calixto Cordeiro).  Kalixto também escreveu os textos que "dão voz" as gravuras, usando os termos e as gírias da capoeiragem carioca da época.

       Resta lembrar que a violenta capoeira carioca das maltas (gangues) dos 1800s - como os Guaimús e Nagoas -, que foi dizimada pela perseguição policial comandada por Sampaio Ferraz, o "Cavanhaque de Aço", quando a República é proclamada em 1890, apesar de acabar com as maltas não extinguiu completamente a capoeiragem carioca.  E é desta capoeiragem, representada por Lima Campos e Kalixto em 1906, que vai sair o "herdeiro" das maltas; uma figura extremamente importante que marcará o imaginário carioca e será básico na construção e entendimento de uma identidade brasileira: o Malandro.

    Capa do livro "Gymnástica Nacional (Capoeiragem) Methodizada e Regrada", de Anibal Burlamaqui, publicado em 1928.

       Anibal é parte de uma corrente carioca de intelectuais que tentaram tirar a capoeira do contexto da marginalidade transformando-a num "esporte" - com regras, competições, juízes, uma confederação nacional, etc. Ou seja: transformar a capoeira na "Luta Nacional", semelhante a esportes "nacionais" de outros países como o Judô no Japão, o Box na Inglaterra, ou o Savate na França.
       Para isto, achavam necessário "eliminar", ou pelo menos "nacionalizar", e "branquear" , as raízes africanas da capoeira.  Daí, a ênfase na mestiçagem (como base da cultura brasileira), e no  mestiço como o capoeira ideal. No entanto, apesar de sermos realmente um povo mestiço - índios brasileiros, negros africanos, portugueses e outros europeus (e, mais tarde, asiáticos, etc.) -, é importante termos em mente que a "Tese da Mestiçagem" (que louva nosso "país mestiço") também pode servir para disfarçar e ocultar o racismo no Brasil, que muitos afirmam "não existir" (uma vez que somos "um povo mestiço").

       Era necessário, também, "tornar a capoeira desportiva", desfazendo, ou minimizando, o  papel da capoeira das maltas cariocas (nos 1800s); e do malandro (no começo dos 1900s). 

    Desenhos do artigo "Nosso Jogo", que saiu na revista EdFex (Rio de Janeiro, 1935), mostrando, numa sequência de desenhos, dois movimentos da capoeiragem da época: a "pantana de esquiva" e a "pantana de cócoras".

       É interessante vermos como alguns praticantes, ou admiradores, já tentavam "documentar" os movimentos através de seqüências de desenhos.  Mestre Bimba, bem mais tarde (aproximadamente 1960), vai fazer a mesma coisa: apresenta desenhos de suas "seqüências" no libreto que acompanhava o disco LP ("long play", de vinil) Curso de Capoeira Regional.  Lamartine Pereira da Costa faz a mesma coisa em seu Capoeira sem Mestre (aprox. 1960); e Nestor Capoeira idem em sua trilogia (1981, 1985, 1992).

       Repare que estes dois itens (Burlamaqui, 1928; e os da EdFex, 1935), não só eram representantes da corrente carioca que queria instituir a capoeira como a "Luta Nacional" (no começo dos 1900s); mas também, curiosamente, foram veiculados no período em que a capoeira era proibida por lei (1890 até a década de 1940).

    O Vôo-do-morcego, desenho do livro "Capoeiragem, a arte da defesa pessoal brasileira", de Lamartine Pereira da Costa.  Mais tarde, o livro foi reeditado, com bastante sucesso para a época, com o título "Capoeira sem mestre" (Rio de Janeiro, Tecnoprint, sem data, aprox. 1960).

       Lamartine é mais um da corrente carioca da "Luta Nacional", dissociada das raízes negras, e da cultura da malandragem. Era oficial da marinha e, também, instrutor de Educação Física e defesa pessoal.

    Desenhos de Carybé, em grande parte inspirados na capoeira da roda no barracão de mestre Waldemar da Paixão (que Carybé frequentava como "observador"), no bairro da Liberdade, em Salvador, por volta de 1960.

       Aqui, ao contrário da "Luta Nacional", propagada por uma certa corrente de intelectuais cariocas, temos a capoeira apresentada como "jogo", como "arte popular", com seu ritual, seus aspectos lúdicos, sua música, etc.   Carybé (que era uruguaio) faz parte de um grupo e uma geração de artistas baianos, entre estes, Jorge Amado.

    Rasteira e benção; e banda de frente; desenhos do panfleto que acompanhava o disco LP "Curso de Capoeira Regional", de mestre Bimba (Salvador, JS Discos, sem data, aproximadamente 1960).

    Desenho da Nestor Capoeira, baseado numa foto do panfleto que acompanha o disco LP de Traíra e Cobrinha Verde (aprox. 1960).

    Foto de Nestor Capoeira, "herói" no filme longametragem "Cordão de Ouro" (dir.  A.C.Fontoura, Embrafilmes, 1979).

       Esta imagem ficou famosa, por volta de 1980, por simbolizar o status, e o sucesso, de uma nova e "moderna" geração de capoeiristas que, na época, tinham aproximadamente 35 anos de idade.
       Entre estes se destacaram o Grupo Senzala, do Rio de Janeiro; Acordeon, formado de Bimba que ensinou em São Paulo e, já em 1978, se firmou pioneiramente em San Francisco (California, USA); Suassuna, baiano de Itabuna, que é uma das mais importantes figuras da capoeira de São Paulo, e do Brasil.

    Cruz, desenho de Sillas de Oliveira para a 1ª edição de "Capoeira, o Pequeno Manual do Jogador" (1981), de Nestor Capoeira (Rio de Janeiro, Ed. Ground, 1981; ed. ampliada e rev. pela Record, 1998).

       Este livro tornou-se um "fenômeno" editorial (no que concerne aos livros enfocando a capoeiragem): já foi publicado em 8 línguas: já vendeu (até 2007) 14.000 exemplares no Brasil, 31.000 nos Estados Unidos, 13.000 na Alemanha, e 3.500 na França, entre outros países como Polônia, Dinamarca, Holanda e Finlândia, onde também já foi traduzido e publicado.

     

    Nestor, Caracu, Itapoan Beiramar.
    Cortesia: Nathan Simmonds

       A "sexta sem lei" é a roda realizada ocasionalmente na sexta-feira, na Escola Nestor Capoeira (Rio de Janeiro), onde se lembra a antiga tradição das rodas regadas à cerveja e à cachaça, onde era praticada uma capoeira de "vadiação" e curtição; e que começa com os "bambas da era de 1922" e vai até as célebres rodas domingueiras no "barracão do mestre Valdemar da Paixão", no bairro da Liberdade, em Salvador, por volta de 1960.